“Joquim Nabuco: Intérprete do Brasil”, por Antônio Campos

O centenário de morte do escritor, político, historiador, escritor, jurista, jornalista, diplomata e abolicionista pernambucano Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo (1849 – 1910), foi a referência histórica que deu origem à Lei Federal 11.946 que institui 2010 como o Ano Nacional Joaquim Nabuco. Nada mais justo e oportuno. Coloca-se para nossa sociedade a chance de debater a relevância histórica e a atualidade das ideias de um brasileiro mundialmente respeitado. Também em 2010, se vivo fosse, Gilberto Freyre (1900 – 1987), outro grande escritor e pensador pernambucano, completaria 110 anos. Portanto, este ano é substancial para se reverenciar as obras de dois grandes brasileiros e realizar iniciativas que democratizem e perpetuem os seus legados.
Como quem reconhece um mestre, Gilberto Freyre sempre enalteceu o conjunto da obra de Joaquim Nabuco. Foi dele, quando deputado federal por Pernambuco, o projeto de lei que criou o então Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (atual Fundação Joaquim Nabuco, em Recife). Freyre escreveu os prefácios para a oitava e a décima edição da autobiografia intelectual de Nabuco, Minha formação, publicada pela Editora Universidade de Brasília. Fez ainda o prefácio da Iconografia de Joaquim Nabuco, com o estudo “Em torno da importância dos retratos para os estudos biográficos: o caso Joaquim Nabuco”. A personalidade e a obra de Nabuco foram interpretadas por Freyre em muitos outros textos publicados em revistas e jornais que serão reunidos e editados este ano em uma coletânea pela Fundação Gilberto Freyre. O organizador é Edson Nery da Fonseca e o lançamento está previsto para agosto de 2010, durante a FLIP de Paraty, que homenageia o mestre pernambucano nessa edição.
Joaquim Nabuco foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (ABL), embaixador do Brasil nos Estados Unidos e viveu também na Inglaterra e na França, onde se destacou como proponente do pan-americanismo, vindo a presidir a Conferência Pan-Americana de 1906, no Rio de Janeiro. Nabuco foi, notadamente, o primeiro intelectual a pensar a formação histórica e social do Brasil a partir da escravidão, se opôs veementemente ao regime escravocrata, combateu a prática e a cultura escravagista, e para isso utilizou seu prestígio político e suas letras. Fez campanha contra a escravidão na Câmara dos Deputados em 1878 e fundou a Sociedade Antiescravidão Brasileira. Deixou evidências profundas que permitem declarar ser ele um dos principais responsáveis pela abolição da escravatura, em 1888.
Como bem pontua o historiador Evaldo Cabral de Mello, que assina o prefácio dos seus diários publicados em 2005 pelas Editoras Bem-te-vi e Massangana, Nabuco analisou o regime escravocrata sem nenhuma complacência, como uma verdadeira instituição que moldou o ethos brasileiro ao definir a nação econômica, politica e organizacionalmente. Para Evaldo de Mello, grande parte do pensamento social no Brasil recai sobre a herança dessa reflexão.
“Acabar com a escravidão não nos basta, é preciso destruir a obra da escravidão”, já era o que advertia Nabuco, quatro anos antes do fim da escravatura no país. No entanto, há um século de sua morte, ainda se registra uma considerável parcela da população formada por negros que sofre com o preconceito e a exclusão social. Na própria história da literatura brasileira desfilam exemplos dramáticos como os do catarinense Cruz e Sousa, recusado como promotor público de Laguna por ser negro; o carioca Lima Barreto, filho de um casal de mulatos que tinha a “audácia” de usar o nome “Affonso Henriques”; a norte-rio-grandense Auta de Sousa, cujos retratos foram “retocados” devido a ascendência negra em seus traços físicos, só para falar em algumas personalidades do final do século XIX, contemporâneas de Nabuco. Mesmo depois de ter presenciado a grande vitória de sua causa com a abolição da escravatura proclamada, o grande intérprete de nossa nacionalidade profetizou que a escravidão permaneceria por muito tempo como uma característica nacional do Brasil. De fato, apesar de um avanço significativo, os nossos indicadores sociais revelam que estamos longe dos ideais defendidos pelo histórico abolicionista nas campanhas para deputado por Pernambuco.
Considerando-se o alcance social de seu pensamento e a abrangência e magnitude de seu desempenho político e de sua produção intelectual em todas as áreas em que atuou, há que se reconhecer em Joaquim Nabuco um homem ousado, um intelectual que jamais se omitiu a cobrar e atuar em razão dos menos validos. Os ideais de Joaquim Nabuco permanecem vivos, por sua grandeza, pelo seu espírito, pelo seu gênio. As novas gerações precisam conhecer a obra, o pensamento e a história desse ilustre pernambucano, cidadão do mundo e um dos principais intérpretes do Brasil.
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