O canto de Bob Dylan e a Odisseia de cada um de nós

Bob Dylan entregou, recentemente, à Academia Sueca o seu discurso aceitando o Prêmio Nobel de Literatura, disponível em áudio no site da Academia, onde fala da relação entre suas letras e a literatura.
Dylan, em seu discurso, destaca três obras: Moby Dick, Nada de Novo no Front e a Odisseia de Homero.
Homero, poeta que fundou a literatura ocidental e que, segundo a tradição, era cego, viu além do seu tempo ao retratar duas grandes histórias atemporais. Contou a Ilíada e a Odisseia oito séculos a.C, que depois tomou forma escrita. A Ilíada, de ira, ilion, a história do guerreiro Aquiles e da guerra de Tróia, que o arqueólogo Henrich Schliemann veio depois comprovar a existência da cidade de Tróia, em terras da atual Turquia. A Odisseia, de Odisseus, os feitos de um homem, Ulisses.
A morte heroica é o valor exemplar da Ilíada. A Odisseia nos ensina a arte da sobrevivência. A Odisseia mostra, através de Ulisses, um homem que é corajoso, mas sobretudo astuto, guerreiro hábil, um estrategista. Cria um estratagema de um presente grego, um cavalo de madeira, para vencer uma guerra de dez anos e leva mais dez anos para voltar à sua terra natal, Ítaca, viagem repleta de desventuras. E Bob Dylan faz uma bela imagem sobre as desventuras de Ulisses para voltar para casa e as desventuras de um homem para se reencontrar, em sua jornada.
“De várias formas, algumas destas mesmas coisas aconteceram com você. Você também teve drogas mergulhadas em seu vinho. Você também dividiu a cama com a mulher errada. Você também foi encantado por vozes mágicas, vozes doces com melodias estranhas. Você também foi muito longe e também soprado de volta para onde estava. E você também teve decisões difíceis. Você enfureceu pessoas que não devia. E você também divagou por esse país todo. E você também sentiu esse vento doente que não sopra nada de bom para você. E isso tudo ainda não é tudo de a Odisseia”, ressalta, em seu discurso, Bob Dylan.
O poeta grego, nascido em Alexandria, Kaváfis, em seu poema Ítaca, mostra-nos o segredo da viagem: “Tem todo o tempo Ítaca na mente/ Estás predestinado a ali chegar./Mas não apresses a viagem nunca./Melhor muitos anos levares de jornada/ e fundeares na ilha velho enfim,/ rico de quanto ganhaste no caminho,/sem esperar riquezas que Ítaca te desse./ Uma bela viagem deu-te Ítaca./ Sem ela não te ponhas a caminho./ Mais do que isso não lhe cumpre dar-te./ Ítaca não te iludiu, se a achas pobre./ Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,/ e agora sabes o que significam Ítacas”.
Nunca é demais invocar Homero e as musas para contar as desventuras humanas, como o canto do grande Ulisses que, que com coragem e inteligência, venceu os desafios da jornada.
Antônio Campos.

Advogado, escritor, membro da Academia Pernambucana de Letras.

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