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Às 17h, do próximo dia 14 (quinta-feira) deste mês de agosto, o Curador da Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas,

ANTÔNIO CAMPOS,

abrirá o Salão de Idéias da 20ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, falando sobre a nova edição deste evento pernambucano em sua quarta roupagem.

Acesse a programação! Clique aqui!

Antônio Campos, escritor, acadêmico (Academia de Artes e Letras de Pernambuco), cronista, conferencista, pesquisador do livro como objeto cultural e ensaísta, é também poeta, Lança um primeiro livro de poemas – e um livro de primeira. Vital Corrêa de Araújo

PORTAL DE SONHOS, de Antônio Campos, disponibilizado no SCRIBD para download. ACESSE. Clique aqui!

Portal de Sonhos

Antônio Campos, escritor, acadêmico (Academia de Artes e Letras de Pernambuco), cronista, conferencista, pesquisador do livro como objeto cultural e ensaísta, é também poeta, Lança um primeiro livro de poemas – e um livro de primeira.

Essa primeira recolha, levada à estampa com o selo da Escrituras, editora de São Paulo (e impressa pela EBGE – São Paulo, do dinâmico José Ubiracy), sob o titulo Portal de Sonhos, revela algo incomum, e assim surpreende. Em geral, um impulso muito comum leva o poeta na montagem do primeiro livro a uma seleção pouco rigorosa (mesmo anárquica), concedendo direitos de cidadania poética a uma série de versos , apenas com valor histórico (os primeiros poemas) ou sentimental.

Segue-se depois a tarefa penosa de revogá-los e excluir da obra definitiva.

A minha consideração, como leitor, sob o quilate dos poemas expresso a seguir.

Uma astúcia – e um equilíbrio de extração grega – uma vontade lírica conseqüente orientaram a estrutura, concepção e composição de Portal de Sonhos.

É, como diria Drummond, um livro breve, mas veloz.

Valoriza o sonho (inconsistente como o éter) e sabe que “o sonho faz, no erguer da asa, até mais rubra a brasa (Shakespeare)”

O livro se estrutura em duas partes, conformando vinte temáticas, expressas em poemas breves, em que a precisão vocabular (ou seleção do repertório da língua) e a concisão lírica são exemplares, demonstrando amadurecimento, na lida com a palavra artisticamente considerada, bem como apuro e acuramento, na firmeza da última lima. (que mantém o nível poético alto em todo o livro) e na utilização da voz poética, nunca confundível com a pessoa do autor dos versos.

Cada parte do livro contempla 10 temas (a 1ª, com 18 textos, e a 2ª, com 23).

Em suma, o poema Portal de Sonhos contém 41 textos, de tal modo e com tal astúcia estrutural de composição que não fica fácil quantificar os poemas em si.

Percebe-se, sobrepairando ou permeando o aparato temático visível, um tópos (ou motivos) submerso, em que o tempo, a vida e o ambiente (o planeta terra natal) são personagens.

O carpe diem flagra-se em passagens como “e não desespere, aproveita a vertigem da paixão, enquanto é cedo”, “cada coisa vem a seu tempo e dura apenas o seu momento”.

O tema da duração temporal e humana e intemporal natural estão presentes em quase o todo dos poemas, conforme a correlação da temática mostra: espera, manhã, idade, safra, paixão, duração etc.

No poema anafórico (último tema da 1ª parte), O cavaleiro, é possível sentir o tempo, de tocaia, ao longo das 10 estrofes. Flagra-se também uma azáfama de (leit)motivos relacionados com a paisagem natural (frutos, cores, rios, pássaros, cavalos), com o ambiente cultural e geográfico Nordeste.

Pedras-de-toque, num apanhado rápido: “tanto cobre-se de ouro, como se abre em chagas”, “o rio castanho como o mel e a crina dos cavalos”, “para que as cores se sintam, Deus pintou a Natureza, com todas as tintas”, “a safra, a messe da solidão, o sofrimento domesticado, a vinda da palavra, para o nosso lado”, “ a espera é consciência do tempo, hora e momento, aprendizado com a terra”, ao balanço da imaginação, na rede do ser, “dispara o coração, procuro domá-lo, sinto o vento lavando a várzea, correndo mais de cem cavalos”.

Nesta última imagem, “correndo mais de cem cavalos”, Antônio Campos se supera e avança, como poeta, ao nível dos melhores imagistas, de agora (e aqui).

No entanto, a texto primo, elejo o poema Aprendizado com a terra (titulo que é um verso do poema A espera), em que, no âmbito de 47 versos e 12 estrofes, AC alia, ao telurismo, a sinceridade da emoção por Pernambuco e traduz esse estado, numa composição poética, marcada pelo aprendizado cabralino de Educação pela pedra, e sulcada por uma dicção poderosa, que exprime uma imagética (igualmente soberba).

O poema Aprendizado com terra forma, com A duração, O cavaleiro, Paisagem, Reino do Verde, No Alpendre e Mundo, mundo, um (só) outro grande poema, que é uma lição das coisas de nosso tempo, na concepção humana e poética de Antônio Campos.

A propósito, num poema (A espera), de 4 estrofes e 16 versos, é significante – e simbólico – o amontoado de termos (palavras) do campo semântico “tempo” Espera (4 vezes), momento ( 3 vezes), tempo (6 vezes), além de: sono, partida, instante, vôo, hora, terra, estação, sol, noite, verão, inverno, antes, depois.

Chamo à colação tal poema, graças à criatividade (com o objeto palavra) demonstrada no campo complexo da correlação semântica (mais intuitiva), em que arquétipos e ricas associações vocabulares (do eixo sintagmático da linguagem) operam em tal freqüência, que não saturam mas inauguram um estilo singular na nossa poética.

Agora, considero o texto de Portal de Sonhos, sob o estalão da criação poética.

A poesia, esse quid, essa forma do espírito, esse plus do humano, essa marca da verdade do mundo no homem, cerca o mistério da vida, completa a existência, porque decifra o ser, conjuga-o. ilimita, torna o mundo humano – ou funda-o – conforme o divo Holderlin asseverou, e Heiddger deu fundamento e conseqüência.

De modo magistral – e poético – o acadêmico e poeta Antônio Campos, presidente do Instituto Maximiano Campos, curador da FLIPORTO, escreveu que a poesia é um destino. Acrescento: destino humano e destino da razão, porque a poesia instala-se no espírito e estende-se à página, quando a censura, o interdito, a oni (pré) potência do racional (egoístico e autoritário) são vencidos, superados, ou melhor, são escanteados pela força criativa que jaz no ser humano, permitindo abrir-se a baliza, pela irrupção (ou extravasamento da bacia) do inconsciente, dos nossos estratos (ou substratos) criativos, que nos tornam realmente humanos (que são ocultos, por definição, tornando-se visíveis ou operantes pela poesia).

É aquinhoado, agrilhoado, batido, libertado por essa necessidade que qualquer um se torna poeta, e nem ao menos entende essa disponibilidade, esse apoderar-se do espírito poético de seu corpo (organicamente considerado em toda a sua extensão complexa). Daí que, desde Platão, falava-se na possessão poética.

É realmente uma força que nos coloniza, nos possui, direciona ao que há dentro e assim permite ver o que há fora. Pela poesia, vemos além de qualquer simulação, distinguimos além e aquém das aparências, que é a festa do racional (monopolizador da práxis) em nossos olhos mortais. A poesia nos faz ver o invisível em todas as suas dimensões, em toda sua concretividade e conexões com o humano. É essa compulsão (ditada pelo que nos faz, torna e perdura de mais humano) que alveja o poeta Antônio Campos, levando-o a terçar armas com o poético, a escavar o id com o buril da alma em riste, a desentocar o intimo e expô-lo a público. É uma vitória mais que pessoal a decisão de ser poeta e abrir os diques da represa do criativo, deixando o espírito correr como cavalo selvagem, para o leito da página, onde o aguarda o pasto macio e meio demoníaco da palavra – em – poesia, diva ração que Deus ao homem concedeu.

Ex-positis, considero Portal de Sonhos êxito e pórtico, ingresso e fuga ao êxtase laborioso da palavra poética, a serviço da realidade do mundo humano.

Ou seja, como consta do prefácio de Antônio Campos, para o livro do mestre Sébatien Joachim sobre um poeta pernambucano: a poesia é para nos compreendermos, não para sermos compreendidos.

CONVITE: DIA INTERNACIONAL DO ESCRITOR

Convite - Dia Internacional do Escritor

Antônio Campos agradece!

Antônio Campos - Recife, 25 de junho de 2008.

Antônio Campos agradece a todos que prestigiaram a festa de seu aniversário, na quarta-feira 25 junho p.p., quando autografou seu lançamento Portal de Sonhos e a segunda edição de Território da Palavra.

O FUTURO DO LIVRO

No dia 25 deste mês de julho, Dia do Escritor, às 17h, no café literário do Porto das Letras, Antônio Campos falará, a convite da Fundação de Cultura Cidade do Recife, sobre “O Futuro do Livro“.

O Porto das Letras está instalado na sede da Gerência Operacional de Literatura e Editoração localizada na
Av. Rio Branco, n. 76 A, no Bairro do Recife.

Antônio Campos - 25 de junho de 2008
Assista à exibição de slides com alguns momentos do aniversário. Recife, 25 de junho de 2008. Clique aqui!

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No dia em que comemora 40 anos de vida, Antônio Campos faz sua estréia como poeta lançando, hoje, 25 de junho de 2008, o “Portal de Sonhos”, que disponibilizou para download gratuito no site internacional SCRIBD. Para acesso ao e-book, clique aqui. O livro traz o selo da editora Escrituras. O projeto gráfico é de Patrícia Lima, e as fotos que fazem parte do volume são de Gustavo Maia. O prefácio é de Lucila Nogueira que afirma: “[…] Antônio tece agora para nós a outra voz, a que foi chamada poesia por Octavio Paz, com a humildade e a altivez híbridas do poeta, fazendo a sua parte nesse jogo e nessa viagem com que todos nos defrontamos.”
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Na mesma noite, Antônio autografará a segunda edição de seu “Território da Palavra”, também pela Escrituras e também disponibilizado para download no site e-BooksBrasil. Para acesso ao site, clique aqui!
Sobre a obra: “Basta lê-lo. Basta lê-lo sempre. Para se verificar que aqui é reunida uma prosa que faz sempre bem, acalenta e vibra. Até porque, e a seu modo, Antônio Campos é também um rebelado.” Raimundo Carrero
Antônio é filho do escritor Maximiano Campos, da Geração 65 de autores pernambucanos. Nasceu em 1968, no Recife. É advogado especializado em Direito Empresarial e Direito do Entretenimento.
Além disso, é presidente do Instituto Maximiano Campos – IMC, sociedade civil voltada à valorização da cultura brasileira, especialmente dos valores literários, com ampla atuação em Pernambuco e no Nordeste.
Publicou os seguintes livros: Mensagens (2002); Pense S. A. (2002); O Grande Portal (2003); Direito Eleitoral – Eleições 2004 (2004); Viver é Resistir (2005); além da plaquete A Arte de Advogar (2004). Também organizou obras como a coletânea Pernambuco, Terra da Poesia (2005) e Panorama do Conto em Pernambuco.
Na área literária, tem se destacado como curador da Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas – Fliporto, uma das mais bem-sucedidas iniciativas do País nesse campo de atuação.

EDIÇÕES ESPECIAIS
Antônio é um iniciado na poesia há tempo e o portal Poetas del Mundo homenageou com a comenda “Cônsul da Poesia em Ipojuca”. A iniciativa foi da panteneira e também poeta Delasnieve Daspet que representa esse Movimento Internacional no Brasil. Acesse. Clique aqui!
No site oficial do poeta, você encontra edições especiais de três de seus poemas de seu lançamento “Portal de Sonhos”. Acesse! Clique nos títulos: A SAFRA | A MANHÃ | A PAIXÃO .

A OUTRA VOZ DE ANTÔNIO CAMPOS

As feras ouviam a serena voz
do bem e a julgavam enlouquecida.
Pode não ser paz a morte nem tranqüila a vida,
há sonhos no homem que nem a eternidade limita.>Antônio Campos

Portal de Sonhos - Antônio Campos: lançamento 2008. Poesia. Editora Escrituras, SP. Fotos de Gustavo Maia.

Schlegel dizia que todas as pessoas que amam a poesia são por ela reunidas e aparentadas em laços inseparáveis. Porque elas têm uma maneira especial não só de ser, como de ver e sentir os eventos do cotidiano, daí o reconhecimento entre si que ocorre na classe dos autores, ainda quando a obra está oculta, e não surgida em livro, revista ou leitura pública.

O poeta, como Édipo diante da esfinge, identifica e decifra os signos qual Prometeu, que rouba o fogo dos deuses e o reparte com os homens; como Ícaro de asas coladas, que arremete sobre o mundo desde as alturas, anjo de Wim Wenders aspirando à materialidade da condição humana.

Conforme Octavio Paz, a poesia vem ser a outra voz, aérea e subterrânea, que os poetas ouvem não de fora, mas de dentro de si próprios, dependendo da modulação do sotaque a sua singularidade, que lhe dará a marca da diferença como forma típica de uma existência. É que o ânimo do homem possui algo assim como uma verdade anterior, daí que a poesia sempre diz mais do que anuncia, porque consolida uma atitude diante do mundo, decisão do poeta em ser ele mesmo,para além da superfi cialidade dos simulacros em torno, do esteticismo vazio ou do diletantismo pedante. Ela há de ter sempre um caráter de assombro, um timbre de estremecimento, nunca um mero afã de novidade. Não a vejo como mero refúgio, disfarçada fi losofi a ou substituta da vida; compreendo-a como necessária e jamais inútil, companheira sempre disponível à interlocução e ao diálogo.

Poesia: um modo onírico de legislar. Portal de sonhos. É o que sinto de imediato à leitura deste livro de poemas de Antônio Campos, advogado, escritor e produtor cultural, em que a outra voz, no caso a poética, vem nos surpreender e se nos apresenta em uma sucessão de quadros e temas, imagens e idéias, com uma dicção consentânea em seus traços principais, com a densidade intelectual e lingüística da poesia que se faz em Pernambuco, onde o local toca o universal com gosto de raiz e o sofrimento humano ascende à condição de princípio norteador da permanente resistência no desejo da conquista substancial mais grave:

Amigos, esta luta é um castigo,
não quis nada além da solidão
que mora e vive em paz comigo.

Um dia virá a palavra,
e o tempo correrá
ao nosso lado.
Então, colheremos a safra:
o sofrimento domesticado.

Uma reflexão sobre a percepção poética implica em aferir a relação do homem com a natureza através da linguagem. Talvez por isso, Mikel Dufrenne veja o poeta com a função de criar nos leitores/ouvintes o estado poético, que seria de encantamento, mas também de conhecimento, sonho que forma imagens em uma unidade de sons pré-aristotélica, ao modo do devaneio a que se referiu Bachelard.

Perpassa por este livro toda uma atmosfera de melancolia irredimível, como se estivéssemos contemplando o quadro de Dürer com o anjo e seu esquadro, alegoria do poeta e do artista, contrastando com a banalidade sua aura inefável. Ou o anjo do renascentista Correggio, melancólico como o próprio autor, Antonio Allegri, cuja obra só vem a ser revalorizada no romantismo.

Entretanto, os versos estão carregados de uma intensidade contida, característica de um tipo de entrega amorosa que se encontra em extinção, devido à sua força selvagem e contínua, por sob a delicadeza cortês que vai do trovadorismo ao dolce stil nuovo, presente ainda nas estruturas dos poemas de certos autores nordestinos:

Toma este pobre verso
feito de muito espanto,
danações, solidão e medo,
rima e força do meu canto.

Aproveita enquanto é cedo
e seca com ele o teu pranto,
recebe nessa rima o meu zelo,
por todo esse teu encanto.

Se ando de ti tão distante,
não me esqueci que eras bela.
Nem meu amor um só instante

se arrefeceu nessa longa espera,
pois é teu este poema andante
e a paixão que nele se revela.

Sendo prazer e lucidez para o homem, a poesia nos ensina algo sobre nós mesmos, nos conduzindo a sentimentos ainda não experimentados. Ajuda-nos a penetrar nos mistérios da física, pois se constitui naquela realidade absoluta de que falou Novalis, na crítica da vida referida por Matthew Arnold, feita de modo breve (Poe), harmonioso (Coleridge), espontâneo (Wordsworth); espelho e caleidoscópio do mundo interior e circundante do poeta, sempre atento às analogias e conexões, desde o fantástico onírico à radicalização empírica da memória.

O poema pode ser apenas a tradução de algo que o precede, mas que vai importar bem mais do que ele: daí a proposta de Rimbaud: chegar ao desconhecido pelo desregramento de todos os sentidos, o que levou Steinmetz a dizer tratar-se a sua poesia de um espetáculo de lanterna mágica.

Principalmente, diga-se que a poesia é sobretudo uma ênfase, em que o sentido já vem presente no som da palavra. Uma arte combinatória em direção contrária à máscara, mas que não a ignora, antes, a transforma. Ela é que criou a linguagem na infância da sociedade, daí seu caráter de anotação de uma resposta, sendo o poeta o articulador do inexistente como possibilidade e da realidade como sonho alcançado, homem/metáfora que, obstinado, edifica a sua parábola. Sua explosão de afetividade passa pela carne, no calor dos trópicos do Nordeste, terra de heróis e homens bravos ainda ligados a uma perspectiva mítica de sua própria terra, com algo de grego na paisagem de excessiva claridade que serve de cenário à sua busca e à sua solidão. Curioso, sendo o autor urbano, seus versos são bucólicos e remetem a um outro tempo, mais freqüentado de rigor e serenidade, em que a vida é sempre uma luta que fortalece a mitologia do destino, em sua lenda fatalista:

Era a fé e bravura,
no peito sem armadura,
o acreditar que a sorte
despreza quem não a procura.

Após a sucessão de verdadeiras telas do Nordeste, substantivadas na primeira parte do livro, Antônio Campos prolonga, na segunda parte, o fôlego rítmico de sua enunciação lírica, tornando-se mais direto e próximo do seu objeto estético, de maneira mais coloquial e adentrando-se naquele verso chamado livre, que Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade demonstraram ser, muitas vezes, mais corrigido ainda do que o tradicionalmente metrificado. A paisagem inclui o oceano e suas águas, vem à tona o sonho tornado irrecuperável, tempo de exílio e juventude irremediavelmente fugitiva.

Diante do mar,
recolho minha louca esquadra.
Ela chega de viagens e distâncias,
insensata.
Navegou tantos sonhos
que se perdeu nos caminhos:
o tempo virou espuma,
ondas e redemoinhos.
Diante do mar,
a juventude partida,
o possível exílio,
as guerras perdidas,
brisa, sargaço e maresia,
a solidão, a espada
e o haver sonhado,
irredimível.

Das veredas, a memória reconduz a luz de candeeiros e vagalumes da casa branca e do jardim que se mistura ao verde na paisagem do lugar ameno, dos motivos bucólicos; a descrição da natureza vai impregnar essa poética despreocupada de retóricas, poesia de um pastor de sonhos ao modo dos goliardos, o relevo da mata sinuosa cortando a paisagem como um paraíso ainda não de todo perdido.

nas verdes campinas molhadas.
O rio corre lento, maior que
o terraço que rodeia a casa.

Noites de escuro, candeeiros acesos,
bandos de vagalumes imóveis de pavio,
cobertos de lata.

A casa é branca; e o rio, castanho
como o mel e as crinas dos cavalos.
O jardim não tem tamanho, dura toda
a Mata sem intervalos.

Talvez a grande virtude da poesia consista em nos fazer iguais a ela, assim em pleno êxtase, imersos nessa zona singular da alma, entre a palavra e o imaginário, via de acesso a uma cosmogonia feita da infância da humanidade, sua religião primordial, anímica e mágica, primeira abertura para o mundo que, através dos símbolos, nos doa a resposta. O poeta vai e liberta a palavra da natureza; e o segredo do poético está justamente nessa força ao manifestar-se, no desenho como na partitura do verbo inconfundível em sua marca. Interessa verificar como as artes plásticas estão integradas ao ritmo e à sonoridade dos poemas, a ponto de ser esse traço objeto de confissão do próprio autor.

Dessas várzeas da Mata
e desse mar sereno,

fiz uma rede para descanso,
tornei grande o que era pequeno.

Pintura: poesia muda; poesia: pintura que fala. Sim, um livro de poesia como se fosse um mural. E o poeta-cavaleiro em seu galope nordestino torna-se possuído por seus sonhos, prisioneiro de seu elmo onírico, atravessando os rituais mais difíceis, na busca de um Graal não definido, mas com a severidade aristocrática de um rei uno com a sua terra, que só diante da presença do cálice encontraria a salvação. E o que isso significaria, na visão mítica? A força perdida, mas não a imaginação; o poder quebrado, mas não o sonho; o Portal de sonhos.

Com esta terra, aprendi que a vida
também vive na morte
e que Deus dá diferentes sinas
para que o homem carregue o mundo e o suporte.

Dor de viver, alegria de estar vivo. Todos somos isso, essa bipolaridade, essa ciclotimia, esse entusiasmo, essa desilusão. A qualquer instante, uma mudança súbita, um levantar de barcos com bandeiras coloridas, uma exaltação e uma febre pelo que se pensa encontrar em lugar nenhum, uma lebre que se tira da cartola sob uma capa que esconde truques muito antigos. A poesia também com esse caráter lúdico do circo que não esquecemos na nossa infância, olhos perplexos diante do impossível multiplicado em fundos falsos já em decomposição, mas que para nós tinha a supremacia de um poder acima da banalidade do cotidiano.

Só a coragem liberta
o viver amarrado no medo,
que o mundo é um velho mágico
cheio de estranhos segredos.

Espera e crença no milagre, no fantástico, no absurdo, no maior dos impossíveis. Essa é a atmosfera em que nos introduz Antônio Campos neste seu primeiro livro de poesia, que se insere desde já no panorama por ele traçado em significativa antologia do que tem representado, no cenário nacional, a bela poesia pernambucana. Além dos livros anteriores, que incluem inclusive uma antologia do conto em Pernambuco, Antônio tece agora para nós a outra voz, a que foi chamada poesia por Octavio Paz, com a humildade e a altivez híbridas do poeta, fazendo a sua parte nesse jogo e nessa viagem com que todos nos defrontamos.

Lucila Nogueira

CAMPOS, Antônio. Portal de Sonhos. São Paulo: Escrituras, 2008. Projeto gráfico: Patrícia Lima. Fotos de Gustavo Maia.

Antônio Campos - Antônio Campos em foto recente

Antônio Campos no portal Poetas Del Mundo

Antônio Campos foi nomeado pelo portal Poetas Del Mundo, Cônsul de Ipojuca. Saiba mais. Acesse: http://www.poetasdelmundo.com/verInfo_america.asp?ID=4215

Antônio Campos - Cônsul de Ipojuca

Fliporto 2008

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Atravessar o Atlântico, mas no sentido inverso ao dos navios negreiros que trouxeram ao nosso continente mais de 9 milhões de escravos, a partir dos primeiros anos do século XVI. Aos 120 anos da Abolição, celebrar o significado da África no Brasil e na América Latina, nós, afro-brasileiros, afro-latinos, no confronto aos códigos de discriminação e opressão. Não é geográfico esse ponto de retorno, uma vez que reside inquebrantável dentro de nossa memória étnica. Trata-se de um reencontro com o nosso chão psicológico, nossa paisagem mais nítida, a fisionomia que não conseguiram tornar invisível.

Latino-americanos a congregar os vários desdobramentos da diáspora africana nestes tempos pós-coloniais. Conscientes de suas vastas raízes, sabedores que os próprios iberos colonizadores já traziam dentro de si o sangue norte-africano, após 8 séculos em que eles dominaram a península. Brasileiros que, há cinco anos, têm uma legislação, a de número 10.639, sancionada a 9 de janeiro de 2003, que tornou obrigatório, no ensino Fundamental e Médio, o ensino de história e cultura afro-brasileira e de história e cultura africana, estabelecendo diretrizes para as relações inter-étnicas em nosso país.

A educação multicultural vem significar o resgate da plenitude histórica e social quanto à identidade racial e à diversidade na sociedade pluriétnica, implementando ações que superem a falsificação histórica aos afro-descendentes. Há nas universidades brasileiras um verdadeiro boom de estudos acadêmicos sobre autores africanos, sobre a formação do continente e sua evolução desde mesmo a cultura egípcia até os processos políticos mais recentes. O caminho seguido é a releitura da historiografia africana, o percurso de seus traços identitários em fatos marcantes, a preocupação com problemas comuns, como o desmatamento e a pobreza.

Em 1925, o mexicano José Vasconcelos afirmou que na América Latina estava se formando uma nova raça, feita com a riqueza de todas as anteriores, a raça final, a raça cósmica. Há uma seqüência de pensadores que tem ajudado o nosso povo a não perder jamais a auto-estima, desde Bartolomá de Las Casas, o Apóstolo da América, até Simon Bolívar, José Marti, Sousândrade, José Veríssimo. Sabemos reconhecer a importância da mitologia azteca, bela como a da Grécia, sentimos a riqueza de nossa cultura mestiça, sentimos orgulho da presença africana em nossa cultura, na música, no temperamento, na literatura.

A terceira versão da FLIPORTO, realizada em setembro do ano passado, internacionalizou-se e transformou o Brasil em um pólo congregador dos vários países latino-americanos. Cuba, Colômbia, Nicarágua, Porto Rico, República Dominicana, Bolívia, Chile, Peru, México, Argentina, Uruguai, Venezuela estiveram aqui representados, escritores referenciais em suas comunidades, com militância ativa em seu pacto literário. E tudo em um ambiente descontraído, característico do Nordeste, presentes também grandes nomes nacionais e pernambucanos, de modo que os convidados ficaram impressionados inclusive com o grande público presente à programação literária, em uma euforia compatível com a intensidade e profissionalismo como foi desenvolvido o nosso trabalho.

Agora, nos estendemos à África, com o tema TRILHA DA DIÁSPORA: LITERATURA EM ÁFRICA E AMÉRICA LATINA. Iremos nos ater mais detalhadamente aos países de língua portuguesa, porém celebrando autores como a primeira mulher africana negra a receber o Prêmio Nobel da Paz, Wangari Maathai (Quênia, 2004) e o primeiro africano negro Prêmio Nobel de Literatura, Wole Soyinka (Nigéria,1986). Homenageando o poeta negro Cruz e Sousa, fundador do nosso simbolismo, aos 110 anos de sua passagem, bem como o poeta baiano Castro Alves, pelos 140 anos da apresentação pública de Tragédia no Mar, que viria a se chamar O Navio Negreiro (1868). Homenageamos nesta versão o grande escritor Jorge Amado, pelos 70 anos de publicação na França de Jubiabá, vitória obtida após haverem sido queimadas, no ano anterior, as edições de O país do carnaval, Suor, Cacau, Mar Morte, Capitães de Areia e o próprio Jubiabá, por determinação da Sexta Região Militar. A FLIPORTO 2008 presta, ainda, uma significativa homenagem ao centenário do poeta negro pernambucano Solano Trindade, bem como aos 120 anos da Abolição. Outro homenageado é Josué de Castro nos cem anos de nascimento.

Na praia de Porto de Galinhas, antigo porto de escravos, nos dias 06 a 09 de novembro, dar-se-á o encontro/reencontro das etnias: escritores de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, debatendo temas de interesse comum com escritores brasileiros, hispano-americanos, autores portugueses e espanhóis entusiasmados com o pós-colonialismo, teóricos fundamentais contemporâneos dos estudos inter-étnicos e culturais. Tudo dentro da perspectiva que não vê a literatura como mero entretenimento, mas como fator educacional de formação humanística, como parte da cultura, como princípio ético/estético a preencher o vazio e fortalecer no homem a coragem, a resistência, o gosto da beleza, a busca de si mesmo, a solidariedade entre os povos